Eles morrem

Quando você começou a ficar doente e a ter essas convulsões repentinas e sem explicação, mamãe passou a ficar mais tempo em casa. Foi bem na época em que a aposentadoria dela saiu. Os horários dos remédios e das refeições nunca podiam atrasar, ela sempre estava em casa para prepará-los. Você engordou, ganhou umas verrugas estranhas pelo corpo, perdeu a força nas patas, ficou surdo, um pouco cego também. No final, estava se locomovendo com uma tremenda dificuldade e passava longos períodos num sono profundo. Mesmo assim, esforçava-se para acompanhá-la por todos os cômodos da casa. Num dos momentos de crise, ela pediu que não se preocupasse, que se estivesse mesmo cansado, ela entenderia. Ditian viria buscá-lo, você não ficaria sozinho.
Hoje nós estamos infinitamente tristes.

Em busca do tempo perdido

O interfone toca. Mila desce correndo e volta toda saltitante com um pacote nos braços: "meu livro chegou!". Mais um, pensei. É um Proust, gigante, No caminho de Swann, primeiro volume de outros seis gigantes que formam o Em Busca do Tempo Perdido. "Vou comprar os outros mais para frente", garante.
Nussa, fala sério! Vai ler Proust agora?! Desculpa, mas quem nos dias de hoje encara esses sete volumes? Haja paciência! São mais de 3.000 páginas! (segundo informação que coletei na orelha do livro enquanto xeretava assombrada com a ideia de ler a obra completa).
Mila me lança um olhar idignado: "Ué, você não leu Harry Potter?"
(Não, não li todos os harrys, mas nem vem ao caso, o argumento dela é bom. Fiquei sem resposta.)
......
Isso me lembrou do Bonsai, filme chileno muito bonitinho que vi no Festlatino por indicação de uma amiga, a Carol. No filme, um casal enfreta o desafio de ler Prost juntos, mas o amor não restiste a tantas páginas, a tanto tempo... (calma que eu não estou contando o final).
Fiquei com vontade de ler o romance que deu origem ao longa. (São só 60 páginas!) Quem sabe depois não encaro o desafio proustiano.

Passe para o inglês:

"A ovelha caga no lençol barato do navio."

Agora leia o resultado em voz alta.

Toda noite ela faz tudo sempre igual

O pó da rabiola. É como eu chego em casa nas quintas à noite. Depois da labuta e de horas perdidas no trânsito, outras tantas perdidas assistindo aula de metodologia do português; tomar um banho, colocar meu pijaminha confortável, me ajeitar na cama para xeretar no facebook, ler uns parágrafos do livro que está na cabeceira da cama... é tudo que preciso.
Mal fecho a porta e... "AAAAAHHHHH", pula na minha frente um ser vindo da escuridão da cozinha. "CARALHO! VAITOMANOC*! QUÉMEMATÁ?!!!", meu coração vem para a garganta. "Ha-ha-ha", ela ri da minha cara de pânico.
Bom, caso eu desenvolva problemas cardíacos precocemente já sabem quem culpar. Em outras palavras, cada um tem a irmã gêmea que merece.

Era uma casa muito engraçada...

A música de Vinícius marcou minha infância. Domingo à tarde, andando pelas ruas da capital, eis que encontro a casa engraçada, sem teto, sem nada. Rua dos Bobos é na verdade a Cardeal Arcoverde.

O Filósofo Voador

O trapezista é um homem pássaro. O filósofo também.
Dover Tangará era o filósofo voador.

Depois de dias na UTI, entre a vida e a morte, o filósofo rendeu-se. Hoje São Paulo é mais cinza, mais agressiva, mais inóspita... Pudera eu também ter asas...


Crises de riso

São inexplicáveis. Qualquer bobageira pode virar o estopim de minutos e minutos de risadas incessantes, geralmente quanto mais besta melhor e, se vier com uma ajudinha alcoólica então... está feito o estrago!

Depois de umas doses, a fila da balada parecia não andar. "Mano, preciso fazer xixi!" Puxei a Mila pelo braço e corremos para o boteco sujo do outro lado da rua. Enquanto estou lá, me equilibrando entre as poças de urina, tomando o devido cuidado para não encostar em nada, escuto:
- Moça, se você soubesse da assadura que to aqui debaixo do braço..."
- Coloca maizena! - resposta na lata! afinal é tão normal conversar com desconhecidos sobre isso na porta do banheiro, não?
- Mas onde é que vou encontrar maizena essa hora da noite? (!!!)

Pronto, foi de doer a barriga.

Não achou graça?!? Madrugada, tiozinho bêbado, assadura, maizena, MA I ZE NA!!
É... só se morre de rir uma vez.

São Paulo é a terra dos encontros

O relógio já passava das onze. No boteco perto da casa do Adri, um velhinho, daqueles bem velho mesmo, de boina e colete, bem acima do peso, com a pele marcada pelo tempo, mexia na bengala impacientemente. 
"Calma, Seu Amir, ela já está vindo!", garantiu a travesti de meia idade sentada a sua frente.
Ixi, pensei, a prostituta está atrasada. (Puro preconceito, né? Eu sei, mas foi inevitável.)
Eis que, para minha surpresa, aparece Dona Margô, uma vovó para lá de fofa, toda curvadinha e enrrugada, conduzida pelo braço por uma amiga bem mais jovem.
"Dona Margô, que bom que a senhora veio!" Levantou-se para cumprimentá-la a travesti e logo tratou de apresentar o amigo. "Olha só quem está aqui? O seu Amir. Senta lá do ladinho dele. Ele é libanês, adora cultura!"
.......
"Eu fui professora de primário durante muitos anos", contou Dona Margô.
"Então, vou ser seu aluno."
"Não, meus alunos tinham até 10 anos!"
"Eu tenho 9."

Verdades e chocolate

Saímos da Villa Bahia com um bolo brigadeiro debaixo do braço. Impossível resistir a vitrine de doces, é tudo feito para comer primeiro com os olhos... embalagem impecável, cobertura brilhante, cheia de granulado, massa bem escura, daquelas que você vê e pensa "deve ser puro chocolate"... humm. Em casa:

Eu: Gostou do bolo, Adri?
Ele com cara de nojinho: Mais ou menos...
Eu: Aff, você só reclama, né?
Ele: Nem vem! Não foi você que fez, eu posso falar a VERDADE.

a verdade... a verdade... a verdade....a verdade...

A imobiliaria liga...

Meu coração pára. Pronto, vamos ter que procurar um outro canto para chamar de lar. E com os preços exorbitantes do jeito que estão, vai estar mais para maloca do que qualquer outra coisa.

É engano, não solicitamos eletricista nenhum.

É justo viver assim, meu deus? Estamos pagando as contas em dia, tenha misericórdia de seus filhos!