Coristina D

Sabe esses comerciais de remédio antigripal? Esses que mostram a pessoa doente e acabada, assoando o nariz sem parar e espirrando como uma metralhadora desgovernada; depois, entra em cena o amigo saudável, aquele que oferece a salvação: uma bolinha mágica? Pois é, eles são reais! Eu protagonizei um hoje.
Quem me conhece sabe que sou intrometida e falo (abobrinhas) pelos cotovelos, principalmente em um estado de ansiedade acima do normal. Bom, estava eu lá aguardando na recepção para entregar uns documentos na imobiliária, quando noto que a recepcionista está fanha, com o olhar cansado, lenço de papel sobre a mesa... pronto não dá outra:
- Nossa, você está doente?
- Sim, é holível, tô glipada no velão, vê se pode!
- Putz, semana passada fique assim também, mas aí tomei um comprimido e melhorei rapidinho. Você conhece o XXXX? (ocultei o nome do medicamento, isso não é um blog de comerciais!)
- Nao.
- É muito bom, foi o farmacêutico que me indicou, e não dá sono porque tem cafeína.
- Sélio, acho que vou compla.
- Ei, eu tenho um aqui, quer? 
Tiro a cartela da bolsa, a câmera focaliza e corta.
Fundo azul, mulher famosa e atraente entra em cena segurando o remédio, sorri e diz: "Com XXXX a gripe não tem vez". Corta.
[O ministério da saúde adverte: este medicamento é contra indicado em caso de suspeita de dengue.]
Só esqueci de mencionar que, no meu caso, tomei com cerveja, vai saber se não foi isso que potencializou o efeito.

O Adriano tem memória, eu não

Andar pela cidade é remexer o caldeirão borbulhante da memória. Bom, pelo menos é para o Adri... "Foi aqui que extrai os dentes do siso", ele diz apontando para uma casinha branca em algum lugar em Pinheiros. "Já expus nesse prédio". Oi? "É, quando estava no primário a escola fez um convênio para expor os desenhos dos alunos, era um hotel antigamente. Eu desenhei uma praia e um cara saltando na água de uma pedra e..."(neste momento, já estou boquiaberta, ele está lembrando até as cores do desenho!). Mais a frente: "Eu e o João já tagueamos esse muro, pena que ele foi pintado".
Como pode? Tenho dificuldade até para lembrar o caminho de casa! Pergunto-me até hoje onde era o consultório da primeira dentista que me atendeu em São Paulo; ela era tão boa... pena que não guardei o endereço, nem o nome dela eu lembro.
Ele é bom também com nomes também. Filmes, diretores, atores, romancistas, filósofos, políticos, novos, velhos, mortos, tudo; ele lembra e eu não.
Dia desses, conversando sobre a mostra do Louis Malle, afirmei categoricamente: só vi um filme dele, tem um tempão já, na época da faculdade. "A gente viu juntos Os amantes esse ano". Não vi. "Viu". Não vi. "Viu". Não vi, não vi e não vi! "Era sobre uma mulher que vai a Paris passear com amiga e começa a trair o marido com um jogador de pólo famoso". Ok, eu vi.
Agora ele quer me convencer que jantei em um restaurante em que não jantei. Acho que vou acreditar.

Da série "dia a dia com Mila Mainardi"

"Experimenta esse vinho, você vai gostar."
É doce?
"Gabi, o amor é doce, o vinho não precisa ser."

Ansiedade

Ele corrigindo meu trabalho.
E aí, muito ruim?
Silêncio.
Poxa, está tão ruim assim?
"Vou pegar um café."
Só preciso de um cinco!

A vida é feita de encontros

"Uma tarde chuvosa fiquei com desejo de um daqueles sanduíches de queijo com alface. Procurei em nossas coisas e achei exatamete 55 centavos, coloquei as moedas em minha capa de chuva cinza, com meu chapéu Maiakóviski, e fui ao Automat.
Peguei minha bandeja e depositei as moedas, mas o vidro não abriu. Tentei de novo sem sorte e então reparei que o preço havia subido para 65 centavos. Estava desapontada, para dizer o mínimo, quando ouvi uma voz: 'Posso ajudar?'.
Virei-me e ali estava Allen Ginsberg. Nunca havíamos nos encontrado antes, mas sem dúvida era um dos grandes poetas e ativistas do país. (...) Allen acrescentou os dez centavos que faltavam e ainda me pagou um café. Sem palavras, acompanhei-o até a mesa, e então ataquei o sanduíche.
Allen se apresentou. Ele falava sobre Walt Whitman e comentei que havia sido criada perto de Camden, onde Whitman fora enterrado, quando ele se inclinou para mim e olhou com mais atenção. 'Você é menina?', perguntou.
'Sou', falei. 'Algum problema?"
Ele só deu risada. 'Desculpe. Achei que você fosse um menino bonito.'
Então entendi tudo.
'Bem, isso quer dizer que devo devolver o sanduíche?'
'Não, aproveite. O engano foi meu.'
(...) Algum tempo depois Allen se tornou meu bom amigo e professor."
(Patti Smith, Só Garotos, p. 119)

A felicidade é...


Às vezes eu troco a saladinha do por quilo por um folhado de palmito e um suco da Casa do Pão de Queijo. Eu sei, comida de plástico... mas a Berrini é um tumulto no horário do almoço! Prefiro a companhia de um livrinho e o silêncio dos fundos do café.
Nem sempre o que é saudável para o corpo faz bem para a alma.