Nina no parquinho corria de um lado para outro sem parar, dava cambalhotas na areia e não cansava de se pendurar no trepa-trepa. Sorria, pulava, gritava e até beijinhos nos brinquedos de madeira ela distribuiu. Era uma alegria tão pura e sincera que me deu um nó no estômago. Não me lembro da última vez em que fui feliz assim. Por que é que a gente cresce desaprendendo a ser feliz? Quero a minha inocência de volta.
Não é fácil
Parou diante do espelho. Olhou atentamente cada detalhe de seu rosto: a pinta na bochecha esquerda, as marcas das espinhas da adolescência, os cravos do nariz, as bolsas de cansaço sob os olhos. Levantou a franja. Franziu a testa. Jogou os cabelos de um lado, depois para outro. Fez caretas e biquinhos. Levantou as sobrancelhas, primeiro uma de cada de vez, depois as duas... Nada. Será que era a única que não via?
- "Alguém, por favor! Certeza que não está escrito 'OTÁRIA' na minha testa?!"
Se fosse simples assim...
Sai de casa com sua melhor roupa, é tarde da noite, anda sem rumo até decidir ir ao restaurante favorito deles. O salão está escuro, os funcionários já foram embora. Não sabe como entra, já aparece lá dentro. Silêncio. Anda ao redor das mesas. Seus olhos se enchem de lágrimas. Está triste e desiludida. Olha as janelas, os quadros na parede, tudo a faz lembrar dele. (Aqui entra um flashback dos momentos felizes dos dois juntos: correndo na praia, dividindo a água de coco e fazendo amor na posição "papai e mamãe"). De repente, ela sente a presença dele. Se vira brunscamente, e lá está o responsável por seu aperto no coração. Ele também saiu para caminhar e acabaram no mesmo lugar. Dois passos os separam. Olhos nos olhos. Segundos se passam sem que mexam um músculo. Os batimentos cardíacos aceleram. A atração é incontrolável. Eles se abraçam intensamente, sem palavras, com beijos sufocantes de lábios que há muito não se encontravam. Neste mesmo instante, começa a tocar a trilha sonora especialmente escolhida para eles: o último lançamento da Adele. Todos os problemas, desentendimentos, traições são esquecidos. Estão juntos, é o que importa. No final, já sabemos, serão felizes para sempre.
Livro certo na hora errada ou hora certa com o livro errado
"... no fundo era normal que não soubesse o que queria:
Nunca se pode saber o que se deve querer, pois só se tem uma vida e não se pode nem compará-la com as vidas anteriores nem corrigi-lá nas vidas posteriores.
Seria melhor ficar com Tereza ou continuar sozinho?
Não existe meio de verficar qual é a decisão acertada, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que leva a vida a parecer sempre um esboço. No entanto, mesmo esboço não é a palavra certa, pois um esboço é sempre o projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro." p. 14
Nunca se pode saber o que se deve querer, pois só se tem uma vida e não se pode nem compará-la com as vidas anteriores nem corrigi-lá nas vidas posteriores.
Seria melhor ficar com Tereza ou continuar sozinho?
Não existe meio de verficar qual é a decisão acertada, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que leva a vida a parecer sempre um esboço. No entanto, mesmo esboço não é a palavra certa, pois um esboço é sempre o projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro." p. 14
"Tomas dizia consigo mesmo: deitar-se com uma mulher e dormir com ela, eis duas paixões não apenas diferentes mas quase contraditórias. O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma multidão inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (esse desejo diz respeito a uma só mulher)." p. 22
Trava-língua da depressão
O tempo perguntou pro tempo qual era o tempo mais lento. O tempo respondeu pro tempo que o tempo mais lento era o tempo do desalento.
Chiclete
Show me, show me, show me how you do that trick
"The one that makes me scream," she said
"The one that makes me laugh," she said
And threw her arms around my neck
Show me how you do it
And I promise you, I promise that
I'll run away with you
I'll run away with you
"The one that makes me scream," she said
"The one that makes me laugh," she said
And threw her arms around my neck
Show me how you do it
And I promise you, I promise that
I'll run away with you
I'll run away with you
O peso dos anos
Você percebe que deixou de ser jovem quando...
- Passa a contar os dias para enfiar o pé na jaca;
- Usa a expressão "enficar o pé na jaca".
Amanhã, depois de meses de espera, é dia de acordar na sarjeta com as lambidas dos cães de rua.
Tranporte público é público
Ônibus sentido Santo Amaro segue cheio. Sete e quinze da manhã. Funcionários da repartição, professores horistas, secretárias, recepcionistas, auxiliares administrativos e financeiros, assistentes, esteticistas, manicures, cabelereiros, faxineiros, porteiros, seguranças de supermercado, estudantes universitários atrasados para a primeira aula, estagiários, eletricistas... Uns de banho tomando, outros sem café da manhã, mas todos compartilhando os mesmos 46m² em movimento.
Uma segunda-feira tipicamente paulistana: céu cinza, caras amarradas, mau-humor.
Numa das paradas da Nove de Julho, sobe um usuário nada familiar. Calça rasgada, blusa encardida, cabelo que desconhece a existência do shampoo, cheiro de cachaça e urina, unhas pretas de sujeira.
Pessoas se apertam para dar passagem ao intruso, levam a mão à boca. Um clarão se abre em meio aos assentos. Ele fala e gesticula agressivamente; não está sozinho, tomou o ônibus com um amigo invisível de longa data.
Um dona engomadinha comenta:
- Já não basta esse calor, esse ônibus cheio... mais essa agora. Tinha que pelo menos tomar banho, né?
- Na verdade, só precisa pagar a passagem. Ele pagou.
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