Como a cigarra

O tempo está muito seco, é bom deixar os olhos marejarem...

"Tantas veces me mataron,
tantas veces me morí,
sin embargo estoy aquí 
resucitando.
Gracias doy a la desgracia
y a la mano con puñal,
porque me mató tan mal,
y seguí cantando.

Cantando al sol,
como la cigarra,
después de un año
bajo la tierra,
igual que sobreviviente
que vuelve de la guerra.

Tantas veces me borraron,
tantas desaparecí,
a mi propio entierro fui,
solo y llorando.
Hice un nudo del pañuelo,
pero me olvidé después
que no era la única vez
y seguí cantando.

Cantando al sol,
como la cigarra,
después de un año
bajo la tierra,
igual que sobreviviente
que vuelve de la guerra.

Tantas veces te mataron,
tantas resucitarás
cuántas noches pasarás
desesperando.
Y a la hora del naufragio
y a la de la oscuridad
alguien te rescatará,
para ir cantando."

Videntismo

Pegou uma lupa para enxergar melhor as minhas unhas. Quando chegou no anelar da mão esquerda, uma marquinha branca o assustou.  Disse sem despregar os olhos da lupa: vai perder o namorado! 
Levantou o rosto. Minha cara não era das mais agradáveis. Deu uma tossidinha, continuou: ou vai perder dinheiro... dinheiro ou namorado, mas vai perder! Cuidado dois meses!

A marquinha branca está quase alcançando o limite da unha. Não vejo a hora de acabar com essa sina!
O japa vidente estava errado.  Quando me sentei em sua frente, não havia mais nada a perder.

Libriana em parafusos

O horóscopo diz com exclamativas: "Gabriela! Os momentos cheios da Lua tendem a ser fases particularmente instáveis, num sentido emocional. Procure descansar, recolher-se, evitar farras e festas. Você estará vivendo uma fase fisicamente delicada. Repouse!"

Mais instabilidade?! Até a Lua está querendo me foder!
Lua, sua gorda!

Para acabar de esmigalhar o já destruído coração

O amor acaba, por Paulo Mendes Campos

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Alguém me abraça?

(Copiei e colei do blog da Mila que, por sua vez, copiou e colou do blog de um outro alguém)

Rebeldia (após 2 semanas de aula)

Foda-se esse maldito curso que resolvi fazer! Como assim, não basta o corpo presente?! Tem que ler e participar?!
Ah, foda-se! Já passei faz tempo da idade de ler coisa chata! Vou me entregar sem culpa áquilo que me atrai... a literatura despretensiosa.

O primeiro problema da separação

Peguei a bibliografia do curso e notei que, grande parte dela, eu poderia retirar facilmente das prateleiras do seu quarto.
...
Peguei, folheei, li a orelha, mas deixei a leitura de Os Dois Irmãos, de Milton Hatoum, para depois. Agora estou aqui e o livro está aí.
...
Vou voltar a frequentar a biblioteca.