Cães não têm insônia

Foi tudo friamente calculado. O longo passeio no parque, as brincadeiras de correr atrás da bolinha, as caminhadas, o horário das refeições... tudo pensado para que no final do dia a Aika, cachorrinha hóspede aqui em casa, dormisse profundamente, sem estranhar o novo ambiente.
Funcionou! Antes mesmo das onze, Aika já estava capotada no sofá.

E eu? Minhas pernas doem. Quase três da manhã. Me viro e reviro na cama sem resultado.

do que fica engasgado

"Oh well, nothing. I should have said any of those things. I should have used at least one obscenity. I should certainly have threatened him with violence. I shouldn't have hung up on a 'dunno'. These things are going to eat away at me and eat away at me and I'm going to drop dead of cancer or heart disease or something. And I shake and shake, and I rewrite the script in my head until it's 100 per cent proof poison, and none of it helps at all." p. 139

Ah, Paris...

Hoje assisti pela segunda vez o Meia Noite em Paris. Conclusão: deveria ter aproveitado melhor meus dias na cidade luz. Incrível como a Paris de Woody é fotogênica. Fiquei com vontade de voltar, o filme me trouxe uma estranha sensação nostálgica que não é minha. Difícil explicar, é como se eu tivesse adorado Paris, como se tivesse achado tudo lindo, romântico, florido e perfumado (e saí do cinema realmente acreditando nisso!) mas, na verdade, eu detestei Paris.
Sério. Minha experiência não foi das melhores. Me incomodou o jeito francês de ser, estava acostumada com os "excuse me" dos ingleses e estranhei como fui recebida na França. Lá, tudo funcionava com um "hunf-hunf" resmungado pelas suas costas, isso mesmo, eles substituíam o  "sai da frente, você está obstruindo minha passagem e eu estou atrasado" por um mau-humorado "hunf-hunf". Poxa, assim ficava díficil, né? A cidade é um tumultuo, gente vindo e indo por todos os lados, nem bater fotos era possível sem atrapalhar o caminho de um francês.
Talvez eu precisasse de mais tempo para me adaptar ao ritmo da cidade. Voltar no verão não seria má ideia, para aproveitar melhor a chuva que encanta o protagonista Gil Pender, porque vou te contar, a água que caiu no inverno não teve graça nenhuma. Quem sabe numa próxima visita eu não veja os espaços com novos olhos.

Hitchcock de madrugada

Hitchcock fez parte da minha infância. Não lembro bem quantos anos tinha quando assisti Os Pássaros pela primeira vez, lembro só que foi durante as férias, estava na casa da Batian (época boa em que tomava coca-cola com bolinho todos os dias), era inverno e não estava sozinha. Morri de medo. Foi o filme que mais me apavorou antes das abduções alienígenas entrarem na moda. Lembro claramente de mamãe tentando consolar a mim e minha irmã: "Olha só, dá para ver que é tudo de mentirinha! Vão ficar com medo disso?" Sim, ficamos, e muito.
É provável que nem tenha visto o filme inteiro, lembro de trechos que me amedrontaram muito, como aquela parte em que as crianças são atacadas na escola, ou o enxame de pardais que invade a sala pela lareira. Bom, depois desta experiência, as idas ao parquinho ganharam uma nova conotação, passamos a monitorar o movimento das pombas nos fios elétricos, temíamos um ataque.
O caso é que, só depois de anos e anos, resolvi me arriscar a ver o filme novamente. Aproveitei a mostra em homenagem ao diretor no Cinesesc, e peguei a última sessão da saideira, às 2h da madruga. (Fiquei feliz, pelo menos neste horário os ingressos não estavam tão concorridos).
Foi uma ótima surpresa, o filme é muito bom! Não lembrava da história, das personagens, do mistério dos pássaros, para mim era só um filme de terror. Fiquei em estado de êxtase durante duas horas, acabou e eu ainda queria mais. Na saída ainda ganhamos uns mimos do Cinesesc que me ajudaram a recuperar o fôlego: sopinha de legumes delícia e um botton de Psicoce. Quero mais sessão madrugada!!

A eloquente poesia mobral

Sim, sim, sim! Neste blog também há espaço para a chamada poesia mobral e marginal produzida nesse país e, muitas vezes, largada na sarjeta, abandonada ao relendo, ao lado de cães sarnentos. Vamos recuperá-las! (e jogá-las no limbo deste blog)
Começamos com versos de Capelo, A.

A saga do mimado menino prodígio

Procurou nos pais, colegas e amigos, mas não encontrou seu público.
Ninguém parecia entender aquele seu jeito um tanto quanto lúdico.
Recorreu a pinturas naïf, naturezas mortas e um ready-made art único,
Mas nada que abrisse as portas do mais mísero estúdio…

Percebeu, então, que toda aquela incompreensão
Lhe gerava, pelo menos, um fruto garantido.
Suas mal traçadas linhas, de poeta-sensação,
Desvelaram o segredo para ser atendido.

As rimas fáceis, no entanto, o deixavam constrangido,
Ainda mais misturadas a um berreiro de recém-nascido.
Conseguia tudo o que queria, conforme o prometido,
Que pensava ser pela banal poesia, não pelo choro irrefletido.

Sua manha pseudo-poética continuou com os pais amortecidos,
Até o dia em que gritou tanto à frente de um desconhecido,
Que levou logo um tapa-na-cara-cala-a-boca-menino!
Assustado (ou gratificado?) com a força do ensurdecedor zunido,
O mimado menino prodígio achou para sua jovem vida um sentido.
Murmurou baixinho, como promessa para consigo:
“Até o silêncio de John Cage foi ouvido!”

Hoje, os que um dia o conheceram
Perguntam o porquê de seu jeito contido
Mal sabem que nele germina arte pura
Como deve ser, num gênio reprimido.

Adriano Capelo, Poeta Germano, o Alemão Mobral.

Liquidificando

Depois de mais de ano, resolvi revisitar este espaço, sacudir a poeira, colocar ordem na casa e, talvez, voltar a utilizá-lo. Só não sei ainda muito bem para que. Quero guardar recortes, matérias, bobagerias em geral, afinal não é essa a utilidade de um blog?

Começo alterando o título. Agora somos "Liquidificar".
Gosto dessa palavra. Também gosto de liquidificadores. Então, está aí, vou transformar tudo em suco, antes que a cidade me transforme em um.

High Fidelity

"And that's the last time we will ever speak, probably. 'No problem': the last words I ever say to somebody I have been reasonably close to before our lives take different directions. Weird, eh? You spend Christmas at somebody's house, you worry about their operations, you give them hugs and kisses and flowers, you see them in their dressing gown... and then, bang, that's it. Gone forever. And sooner or later there will be another mum, another Christmas, more varicose veins. They're all the same. Only the adresses and the colours of the dressing gown, change." p. 41-42

Posso compartilhar aqui minhas leituras?
Tem coisas que fazem todo o sentido num momento, mas depois passa. Será que se eu registrar em algum lugar ajuda? Não custa tentar, né?