Ônibus sentido Santo Amaro segue cheio. Sete e quinze da manhã. Funcionários da repartição, professores horistas, secretárias, recepcionistas, auxiliares administrativos e financeiros, assistentes, esteticistas, manicures, cabelereiros, faxineiros, porteiros, seguranças de supermercado, estudantes universitários atrasados para a primeira aula, estagiários, eletricistas... Uns de banho tomando, outros sem café da manhã, mas todos compartilhando os mesmos 46m² em movimento.
Uma segunda-feira tipicamente paulistana: céu cinza, caras amarradas, mau-humor.
Numa das paradas da Nove de Julho, sobe um usuário nada familiar. Calça rasgada, blusa encardida, cabelo que desconhece a existência do shampoo, cheiro de cachaça e urina, unhas pretas de sujeira.
Pessoas se apertam para dar passagem ao intruso, levam a mão à boca. Um clarão se abre em meio aos assentos. Ele fala e gesticula agressivamente; não está sozinho, tomou o ônibus com um amigo invisível de longa data.
Um dona engomadinha comenta:
- Já não basta esse calor, esse ônibus cheio... mais essa agora. Tinha que pelo menos tomar banho, né?
- Na verdade, só precisa pagar a passagem. Ele pagou.
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