Mulheres, fiquem atentas!


Pego a mesma linha de ônibus três vezes por semana e, praticamente, atravesso a cidade dentro dele. O transporte público em São Paulo, como todos sabem, deixa muito a desejar e, mesmo no meio da tarde, horário em que costumo tomar o coletivo, ele segue cheio até o ponto final, no Terminal Santo Amaro.

O caso é que, alguns dias atrás, presenciei uma situação horrível! No meio das pessoas, um homem ejaculou, sem pudor nenhum, na perna de uma moça que estava sentada ao meu lado! Isso mesmo, ele ejaculou! Não tenho palavras para descrever quão indignada fiquei. Tanto ela, como eu, não tivemos uma reação imediata, na verdade, demoramos um pouco para entender o que havia acontecido; tempo suficiente para o tarado deixar o ônibus correndo e fugir. Na ocasião, ofereci-me para acompanhá-la até a delegacia mais próxima e fazer uma queixa, mas ela estava muito transtornada e só queria voltar para casa o mais rápido possível. Eu não insisti.

Lembro que fiquei muito mal no trabalho, pensei em ir até a delegacia sozinha, mas me faltaram forças, acabei deixando a história de lado, um pouco por acreditar que nada mais poderia ser feito.

Acontece que voltei a encontrar o mesmo maníaco no ônibus. Gelei e me arrependi muito de não ter feito nada. Eu estava sentada e ele parou do meu lado, com o casaco enrolado no braço, escondendo a mão, na altura da cintura, exatamente como na primeira vez que o vi. Foi horrível! Pensei em pegar o telefone e chamar a polícia, mas como iria fazê-lo com o tarado tão próximo? Minha reação foi virar de lado, em direção a ele e encará-lo nos olhos, descaradamente. Ele percebeu que eu o havia reconhecido e desceu no ponto seguinte. Fiquei aliviada momentaneamente, mas sei que esse tarado deve ter pego o ônibus seguinte e agredido outra mulher!

Para minha surpresa, eu não fui a única a reconhecê-lo. A senhora que estava sentada ao meu lado também se lembrou dele e me contou um episódio parecido, no qual ele ejaculava em uma menina que estava dormindo. Isso quer dizer que é uma violência frequente! Conversei com várias outras mulheres dentro do ônibus, descrevi-o fisicamente para que, a partir de então, todas ficassem mais atentas. Desci do ônibus com a certeza de que devia procurar ajuda e denunciá-lo! Eis que começa outra novela...

Por sugestão de uma das passageiras, liguei para o disque-denúncia (181), número que aparece gigante atrás de todos os ônibus municipais da cidade. Falei com a atendente Cecília, que antes mesmo de ouvir minha história, disse que não poderia fazer nada para me ajudar. Eu retruquei perguntando qual era, então, a utilidade do disque-denúncia. Segundo ela, serve para tráfico de drogas, pirataria, maus-tratos contra animais, idosos, crianças... E violência contra a mulher?? Não, para isso tem o 180, foi o que ela sugeriu.

180 é o telefone da Secretaria de Políticas para as Mulheres, que trata de violência doméstica. Bom, não custava tentar. De cara, também, a atendente desconversou e pediu para que eu acionasse a polícia civil, telefone 197. Tentei umas cinco vezes e todas ligações caíram. Então, resolvi ligar para a prefeitura e falar com a SPTrans, liguei 156. A resposta foi “você tem que ligar é para a polícia militar, tirar uma foto do suspeito e fazer boletim de ocorrência!”

Que burocracia absurda é essa? É por isso que milhares e milhares de maníacos continuam se aproveitando de nós! O caminho da justiça é tortuosíssimo, me sinto completamente só e desprotegida, de mãos atadas mesmo.

Não, ainda não liguei para a polícia militar, depois de passar meia hora pendurada no telefone, precisava de um tempo para respirar. Quem sabe eles tenham mais consideração ou tomem alguma providência se eu for pessoalmente até uma delegacia ou se eu escrever relatando tudo para as ouvidorias de todos os lugares em que (não) fui atendida. Não sei. No ônibus, as mulheres falaram que eu devia ter gritado, pedido para o motorista fechar as portas e chamado bastante atenção para que o depravado tomasse uma surra dos outros homens do coletivo e, assim, aprendesse a lição. Já me sugeriram que carregasse minha própria “arma”, no caso um canivete suíço. Medo de São Paulo e da violência em que a cidade está submersa. Será mesmo que justiça só com as próprias mãos?

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Hoje, fui a uma delegacia da polícia militar. Nada diferente dos outros lugares. Sabe o que ouvi? "Mas nesse ônibus não tinha nenhum homem, não? Para dar uma sova nesse maluco!?"

Estou indignada!! Algo tem que ser feito, violência desse tipo, não pode continuar impune! Quero, no mínimo, tomar um ônibus na cidade sem que um tarado goze em cima de mim. Acho justo, não é nenhum pedido absurdo.

Nos ônibus municipais falta informação. Por exemplo, para solicitar ajuda, você deve ter em mãos o número da linha, além do destino e ponto final. Eu, por exemplo, nunca lembro, sempre vou pelo  trajeto. Então, por que não colocar esses dados também do lado de dentro? De preferência junto de cartazes gigantes lembrando que violência contra a mulher é crime grave, mais telefone de emergência e foto de suspeitos.

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Já vejo as manchetes nos jornais em caixa alta:

"PASSAGEIRA DE 27 ANOS UTILIZA CANIVETE SUÍÇO PARA EVITAR ATAQUE DE TARADO EM ÔNIBUS NA CAPITAL"

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