Era um legítimo beijoqueiro, meio laranja, amarelado e, dependendo da luz, dourado. Um ótimo animal de estimação, não sujava o tapete, nem chorava por comida; não tinha medo do escuro, nem precisava passear lá fora. Colaborava com a decoração da casa, ornando com o abajur marfim posto ao lado do aquário. Como se não bastasse, distribuía beijos independente de cor, credo ou casaca de futebol. Era beijo pra toda obra! Perfeito, não fosse sua tendência suicida.
Sim, sofria de depressão. Fruto da precoce separação da família? Não sei, o caso é que pulava fora do aquário sempre que a sala esvaziava. Na primeira tentativa, foi salvo por uma esbaforida faxineira, que viera correndo atender o telefone. Na segunda vez, confundiu-se, não percebeu que na sala ainda havia alguém mais, escondido atrás do jornal. Na terceira, assustou as crianças que chegavam da escola. Na última... sucesso!
Seu corpo foi encontrado duro e sem vida, numa pocinha d'água fria.
Já tentaram óleo de peroba, lustra-móveis, cera, vaselina.. nada apaga a amarga marca desbotada, carimbada no assoalho de madeira.
(memórias capelianas)
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